Preço baixo ameaça o negócio de grãos

13/08/2014 11:41

 

A queda dos preços das commodities (matérias-primas cotadas em bolsa) agrícolas no mercado internacional está batendo no bolso dos agricultores, que dependem cada vez mais de subvenções do Estado para manter as contas equilibradas. O elevado custo Brasil — especialmente, o da logística de escoamento dos grãos — impede que haja uma redução nos gastos. Com o retorno em queda, a única saída para alguns setores produtores, como o de milho, vem sendo recorrer aos leilões estatais. Para o governo, contudo, a corda está esticando: 2015 promete ser um ano com mais necessidade de economia e menos fôlego para incentivos. Apesar disso, dizem especialistas, há esperança — para o setor e para a balança comercial, cujo destino ganha uma dose maior de incerteza sem o pilar dos produtos básicos.

“Existe um crescimento da oferta mundial de grãos, fazendo com que as commodities voltem aos preços praticados anteriormente. A tendência é de continuidade nessa trajetória de redução, com os preços equilibrando-se nesse patamar mais baixo”, afirmou o coordenador do Centro de Agronegócio da FGV-SP, João Roberto Rodrigues. Segundo ele, no entanto, a troca de sanções entre Rússia e Estados Unidos, por conta da crise da Ucrânia, deu novo ânimo ao cenário das exportações brasileiras. “O episódio envolvendo Rússia e Estados Unidos abre caminho para as exportações brasileiras de carnes, o que pode levar a um crescimento expressivo da demanda interna por grãos, tanto milho como soja, de forma a compensar a queda no preço das commodities”, acrescentou.

Outro indicador importante é que, apesar do cenário de menor retorno, até o momento os produtores não se mostraram desestimulados para o plantio de 2015. “As vendas de fertilizantes vem crescendo. Isso significa que haverá um aumento da área plantada”, afirmou Rodrigues. “Até agora os dados indicam nova safra recorde”, disse.

O momento, contudo, é de preocupação. Segundo os últimos dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), os preços do milho, por exemplo, registraram queda de 21,2% em julho deste ano em relação ao mesmo mês do ano passado. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) vai realizar no dia 20 de agosto um leilão de subvenção para sustentação de preços para 1,05 milhão de toneladas de milho da safra 2013/14. O leilão de Prêmio Equalizador Pago ao Produtor Rural ou sua Cooperativa (Pepro) será destinado a agricultores de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. O Pepro é um mecanismo usado em momentos de preços baixos, em que o produtor recebe do governo a diferença entre o valor recebido na comercialização do produto e o preço mínimo oficial.

Os agricultores ou cooperativas participantes do sistema poderão vender para avicultores, suinocultores ou bovinocultores, para a indústria de ração, para avicultura e suinocultura ou ainda para comerciantes. Na semana passada, o governo federal liberou R$ 500 milhões para Pepros de milho da safra atual. Os recursos serão suficientes para o escoamento de 7 milhões a 10 milhões de toneladas do cereal, dependendo da disputa durante os leilões.

A realização de leilões, entretanto, tem um limite. “Temos os Estados Unidos nos observando atentamente, por conta do contencioso do algodão, e esperando que o Brasil troque o pé. Não podemos utilizar demais essas subvenções”, afirmou o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro.

E a medida também não resolverá o problema, que é estrutural, segundo especialistas. “É importante que os leilões aconteçam, mas o importante é que seja feita uma revisão na política de geração de renda no campo, especialmente, com uma reforma do seguro rural e do financiamento”, disse Rodrigues, que, no entanto, mantém-se otimista. “Há hoje uma tendência de que os termos de troca piorem, mas não acho que vão piorar, porque há sinais positivos também”, considerou.

O consultor Welber Barral também não vê um cenário tão sombrio. Segundo ele, a previsão é de que os preços das commodities se estabilizem no patamar atual pelos próximos três ou quatro anos e, em proporção, os produtos básicos podem até aumentar o seu peso na balança comercial. Mas não por um bom motivo: “É provável que o peso das commodities agrícolas até aumente na balança, porque a produção industrial está em queda”.

 

 

Fonte: Brasil Econômico

 

 

 

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